março 21, 2004

*Pardais I

NOTA PRÉVIA: Os animais silvestres NÃO SÃO animais de estimação.



Se encontrar um pássaro de qualquer espécie deverá levá-lo até ao centro de recuperação mais próximo para que possa ser devidamente alimentado e recuperado, mais tarde, devolvido à natureza (para ver a lista de centros de recuperação de animais selvagens em Portugal clique aqui - ficheiro PDF).



Porém, como nem sempre é possível ir de imediato, e algumas pessoas vivem longe dos centros, este post serve apenas de SOS para essas situações.





A Primavera está aí e com ela chegam, quase simultaneamente, as aves bebés.



Para festejar a chegada da Primavera e o Dia Mundial da Floresta, resolvi publicar um post sobre um tema que me é particularmente caro e no qual tenho alguma experiência: criação de pássaros à mão, nomeadamente pardais.


 


Geralmente, encontro os pardais em jardins após terem caído do ninho, inadvertidamente ou empurradas pelos progenitores e/ou irmãos. Outras vezes, são os amigos que os trazem porque já sabem que aqui eles terão sempre um tratamento VIP.



Quando criados à mão, os pardais que geralmente são ariscos, tornam-se muito dóceis, muito mais do que qualquer canário. Se foram tratados com carinho, eles aprendem não só a ir buscar comida à mesa, a dormirem no ombro, a esfregarem-se no cabelo, mas também a pendurarem-se nos óculos ou no nariz para roubarem comida da boca.



Isto pode parecer engraçado, mas o ideal é que isso não aconteça. Não convém que os pássaros fiquem demasiado "impregnados", pois isso dificulta a sua sobrevivência quando devolvidos à Natureza, podendo mesmo torná-los incapazes de sobreviver.



Convém, por isso, manter apenas os contactos indispensáveis com a cria, evitando estar sempre a pegar nele. Mantenha o animal num local isolado, com luz natural e longe de cães, gatos e crianças. Qualquer stress pode ser fatal para o animal.


 


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Não é fácil criar um pássaro e ter sucesso (ou não) depende de inúmeros factores como o estado de saúde da cria à chegada, das condições que se proporcionam e, sobretudo, a alimentação e a higiene. E convém ter muita paciência, carinho, sensibilidade e disponibilidade.



Não pretendo escrever aqui um tratado sobre o assunto, mas vou tentar explicar de forma sintética como se deve proceder quando se encontra uma pequena ave que é, sublinho, extremamente frágil.



Em primeiro lugar, deve-se tentar localizar o ninho de onde caiu e, se possível, voltar a colocar o pássaro lá.



Se isso não for possível - e apenas nessa situação - deve-se recolher o animal. Convém verificar se ele não está ferido, o que é frequente. Depois, deve manter-se o passarinho quente, tal e qual como se estivesse no ninho, a uma temperatura superior a 25º. Caso ele tenha permanecido um longo período ao sol, dê-lhe uma gota ou duas de água no bico, de preferência utilizando apenas os dedos ou uma cotonete embebida.


 



Uma vez em casa, o ideal é arranjar uma pequena caixa como ninho improvisado que deverá forrar com material próprio para ninhos ou, em alternativa, pêlo de cão. Evite os panos ou trapos pois a probabilidade de a cria se enredar neles, asfixiando-se, é elevada. Também não o coloque numa gaiola: o mais certo é ele não se conseguir segurar no poleiro e, se ficar no chão, pode acabar por morrer de hipotermia.



Como é óbvio, nos primeiros dias também não se deve juntar o bebé a outros pássaros não só para não transmitirem doenças uns aos outros, mas também para que os adultos não ataquem a cria. À noite, não se esqueça de manter a caixa num local quente para que o passarinho não morra de frio: estando sozinho ele não tem como se manter quente. Se, por acaso, tiver mais do que um pardal tenha cuidado para que o mais velho não esmague o mais pequeno.



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Como todos sabemos, é impossível recriar em casa o tipo de alimentação que os bebés recebem dos pais. Essa seria a situação ideal.




No entanto, podemos substituir essa alimentação através de papas próprias para a criação de aves à mão (apenas à venda em lojas da especialidade: as de hipermercado não são iguais!!!) e não devemos dar unicamente papa para pássaros adultos, vitaminas ou papa para bebés-humanos: isso pode levar o animal à morte porque o seu sistema digestivo não está preparado para digerir esse tipo de alimentação.



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Nos primeiros dias, a papa especial tem que ser de consistência bastante fluida e administrada em intervalos de trinta minutos a uma hora. Durante os cinco primeiros dias, pode-se juntar à papa complexo vitamínico do tipo B, para evitar a debilidade. No final de cada refeição, pode dar umas gotinhas de água, mas não o obrigue a beber.



Um dos principais problemas que surgem, geralmente logo de início, é o facto de a cria se recusar terminantemente a abrir o bico para comer: são os casos mais bicudos, em que só o jeito e a paciência consegue resolver a questão. Outras vezes, dá-se o inverso: a cria quer comer tudo o que lhe passa pela frente, o que também não é bom.



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Para dar comida ao passarinho, sugiro 3 tácticas: com uma seringa das mais pequenas, com um conta-gotas ou com um daqueles "pauzinhos" de plástico, próprios para mexer o café.







Com a experiência e perante o comportamento do pássaro, pode ir ajustando a frequência com que alimenta a ave e, ao fim de uns dias (depende da idade da cria), ir tentando gradualmente dar-lhe outros alimentos como, por exemplo, fruta, couve e pão. O pão é, aliás, a perdição de qualquer pardal.



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Porém, deve ter sempre cuidado não só com a quantidade de líquido que obriga a cria a ingerir, como com o tamanho dos pedaços de comida. Muitas morrem asfixiadas enquanto comem. TODO O CUIDADO É POUCO!



Outro dos segredos para o sucesso é a prevenção de problemas. As aves pequenas são muito propícias a doenças do foro gastrointestinal que as matam rapidamente. O mais comum é ficarem com diarreia, por isso convém ficar sempre atento ao aspecto das fezes, um dos primeiros indicadores de alterações no estado de saúde do passarinho.



Na realidade, nas aves as doenças desenvolvem-se muito rapidamente e muitos animais morrem sem apresentar qualquer sintoma prévio. Assim, há que ter cuidado essencialmente com a limpeza do bico e da cavidade oral após dar comida para prevenir micoses. Quando criados à mão, as penas do peito costumam cair porque a papa tem tendência a escorrer do bico e a colar-se nas penas, mas isso é evitável mantendo uma boa higiene do pássaro.




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À medida que ele for crescendo, ponha à disposição alpista (ou mistura para canário), milho painço e semilha. Se tiver outros pássaros, coloque o pardal de forma a que ele veja os outros comerem, para aprender a fazer o mesmo, mas não mude de alimentação de um dia para o outro. Mantenha a papa em simultâneo com as sementes durantes vários dias.


 






O pardal não é um pássaro doméstico. Por isso, nunca o mantenha fechado numa gaiola por muito tempo e deixo-o voar à solta várias vezes ao dia para que desenvolva a musculatura e fique apto a voar para quando for libertado não ter qualquer dificuldade.





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Como eu já disse, criar aves à mão é uma tarefa que exige dedicação e um trabalho minucioso e de grande paciência. Se não possuir nenhuma destas características não tente criar um pardal.




Lembre-se que os animais são seres sencientes: não faça deles cobaias!


 


Como aquecer um pássaro bebé


Criação à mão de pardais, pintassilgos, verdilhões, serinos, rouxinóis bravos, melros e Companhia Limitada


 


 

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Comentários
--> to Siri: Vou copiar o teu comentário para o Formiguinha e respondo-te lá. Quanto à aparência, já sabes como sou: andei em experimentações antes de acertar. Bjos, Formiguinha Colocado por: Formiguinha em março 21, 2004 08:02 PM
ps - sempre q aqui venho, encontro "cara lavada" neste blog. O anterior, em tons cinza e pálidos, dava "um ar" muito formal e demasiadamente sério. =) Para um blog de bichos, nada melhor q transmitir a alegria d os animais nos dão (mm q haja rubricas sérios e por vezes dramáticos) =) ... contudo, é apenas uma opinião. Colocado por: siri em março 21, 2004 03:02 PM
como sempre disseram-me q os pardais morrem qd estão em cativeiro, sempre q encontro algum, simplesmente coloco-o o mais rápidamente possivel num sitio elevado e de dificil acesso (pelo menos algum) por causa dos gatos. Tenho sempre esperança q os pais o venham alimentar, ou qq coisa assim. Se sei onde está o ninho, penduro-me numa escada e volto a colocá-lo... mas sempre tive sérias reservas. Mas tenho uma dúvida, se por exemplo o encontrar numa altura em q as lojas estejam fechadas (sábados, domingos, ou por ser de noite) há algo q se possa dar às aves entretanto até se conseguir adquirir a tal papa? Colocado por: siri em março 21, 2004 02:56 PM